Tem herança que não cabe em inventário.
Na família da Jane, o que passa de mãe para filha não é joia. É ofício.
1. A avó
ensinou a filha a costurar do jeito antigo: sentada do lado, mostrando com a mão e corrigindo com paciência.
2. A mãe
aprendeu, e ensinou a filha. Ninguém guardou a máquina no alto do armário.
3. A filha
continua fazendo, com muito amor e ousadia.

Quase toda mulher brasileira teve uma costureira na família.
Uma avó, uma mãe, uma tia que ajeitava a barra na véspera da festa e resolvia o impossível com alfinete na boca. Era ela que olhava a peça, virava do avesso e dizia: deixa que eu arrumo.
Na maioria das casas, essa mulher foi ficando só na lembrança. A máquina foi parar no alto do armário, as filhas não quiseram aprender, e a gente se acostumou a achar que o problema era o nosso corpo.
Na família da Jane, ninguém guardou a máquina.
Mais de trinta anos atrás, uma menina de doze anos passou a ir trabalhar com a mãe.
Não era passeio nem castigo. Era chão de confecção, com barulho de máquina, meta pra bater e uma mulher no comando da linha inteira: a mãe dela, gerente de produção.
Aos treze, essa menina já casava e pregava botão em mil camisetas sozinha, numa máquina industrial maior que ela. Eram as camisas Flamel, aquelas de gola padre cheias de botãozinho, que viraram febre no Brasil inteiro.
Dali em diante, ela nunca mais parou.

A primeira coisa que mãe e filha fizeram juntas foi lingerie. Em casa, uma máquina de cada vez.
Depois veio o pijama. Depois veio a inquietação, que é o que move quem não sabe ficar parada.
Porque a Jane queria modinha. Queria a peça que faz a mulher parar na frente do espelho e sorrir sozinha.
Foi numa boutique que ela descobriu o que queria ser.
A loja trazia peças de uma marca do Rio de Janeiro, e aquilo era outra coisa. Era ousado. Era diferente de tudo que as mulheres dali estavam acostumadas a vestir.
A Jane olhou aquelas araras e entendeu que roupa também podia ser coragem.
Ficou quatro, cinco anos. Aprendeu a enxergar tendência, aprendeu a escolher peça, aprendeu a reconhecer no primeiro toque o que vale e o que não vale.
E aprendeu com a dona da loja uma coisa que nenhum curso ensina: como se tem gosto, e como se tem coragem de empreender.
Na mesma boutique trabalhava o Elesir, costureiro de consertos e reparos.
Enquanto as clientes compravam lá na frente, ele resolvia na bancada o que a modelagem não tinha resolvido antes.
A Jane ficou do lado dele, olhando. E aprendeu o ofício que, até hoje, quase nenhuma costureira de bairro faz do jeito que ela faz.
Ali juntaram-se as duas metades que viraram a Gata Garota: saber fazer a roupa, e saber consertar a roupa que o mundo fez errado.
Depois veio a parte difícil, que é a parte que ninguém posta.
Começar do zero significava comprar uma máquina aqui, outra ali, juntando aos poucos. Não existia facilidade de crédito, não existia atalho.
Ela criou as próprias peças antes mesmo de ter etiqueta. Produzia, montava mostruário e saía: de porta em porta, de loja em loja, oferecendo o que tinha feito com a própria mão.
A mãe já estava do lado dela. Depois veio uma equipe de costureiras.
A marca teve outros nomes antes deste. Teve a Gabi Modas, que depois virou a Faith Wear, e teve uma fase inteira dedicada a vestir mulheres da igreja, porque a Jane sempre acreditou que ninguém precisa escolher entre fé e se sentir bonita.
E então o mundo fechou.
Veio a pandemia, e com ela a porta lacrada, o aluguel correndo e o corpo de bombeiros aparecendo para fechar o que ainda estava aberto. A Faith Wear parou. A estrutura ficou guardada, esperando.
Depois veio a covid. Um ano e meio de reabilitação. Três meses só para voltar a andar.
Tem gente que não volta de uma dessas. A Jane voltou das duas.
Mudou-se para o CIC e alugou um apartamento de dois quartos sem nenhuma intenção de morar nele: era para abrigar a confecção. A máquina antes da cama, outra vez.
Quando surgiu a oportunidade de uma loja na Rua do Comércio, ela pegou. Era loja e estúdio de beleza ao mesmo tempo, e se chamava Gata Garota Studio.
Hoje é só Gata Garota Ateliê. Porque o que sobrou, depois de tudo, foi exatamente o que começou: a costura.



"Pra mim não existe não. Eu sempre já tenho um não.
Eu tenho que ir atrás é do sim."
No meio desse processo apareceu a Carol, a menina do marketing.
Chegou com ideias fora da caixa. Às vezes fora demais, mas isso é assunto para outro dia.
Sentou com a Jane, ouviu a história inteira, e as duas remodelaram a Gata Garota juntas.
Hoje é a Carol quem cuida da comunicação, quem ajuda a escolher as peças que vão ser feitas, quem pesquisa tendência e garimpa cor. Inspirada na série favorita dela, Sexy and the City, monta os looks, veste os manequins e inventa tudo que vocês veem nas redes.
Ela já foi modelo, tem um estilo ''peculiar'' de se vestir, ama cores, formas e combinações que a primeira vista podem até ser...diferentes, mas com o tempo, a gente entende que ela é mesmo fashionista, como a cunhada mesmo a chama. E por falar nisso, tem uma saia de Tule furta-cor sendo prometida até hoje...
E enquanto a Carol sonha em ser a Carrie Bradshaw do Paraguai, vamos ver as ideias dela darem vida a às araras e a Gata Garota.
A Jane acha bonito? A Jane concorda com a saia amarela com a blusa de poá?
Não.
Mas as duas se entendem. E é disso que nasce tudo que está nas araras.
PROVA DO CRIME

Em 2026, a Gata Garota fechou por três meses.
Não foi escolha. Foi um daqueles tempos que a gente não escolhe e não explica em uma frase.
Mas loja fechada não é ateliê parado.
Nesses três meses, a pergunta foi outra: para quem a Gata Garota quer falar? Quem é a mulher que entra por aquela porta, e o que ela está procurando que ninguém está entregando?
A resposta apareceu rápido, porque estava ali o tempo todo, repetida no balcão todo santo dia.
Você já comprou aquela peça barata que veio de longe.
Você fez tudo certo. Olhou a tabela de medidas. Leu os comentários. Comparou com uma calça que você já tem. Teve certeza de que dessa vez ia servir.
E não serviu.
A culpa nunca foi sua.
A verdade é que quem tem corpo brasileiro raramente veste qualquer peça como uma luva. É cintura fina com quadril largo. É quadril estreito com coxa forte. É corpo cheio, com bumbum e coxa de respeito. São tantas combinações quanto são as mulheres deste país, e nenhuma tabela genérica dá conta disso.
Aqui a conta é ao contrário.
Não é você que precisa caber na peça. É a peça certa para o corpo que você decidiu ter.
Quem disse que o seu corpo é fora do padrão?
Quem disse que precisa existir um padrão?
Mais de trinta anos depois daquela primeira máquina, a linha continua a mesma.
Venha ser gata
com a gente.
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